sábado, 26 de novembro de 2011

A GRADUAÇÃO NAS ARTES MARCIAIS

Vivemos em uma sociedade, ou melhor, em um mundo, que valoriza a “aparência” das coisas, não importando o que se “É” e sim o que se parece “SER”. Valores que outrora tinham um sentido intelectual e prático, ou ético e moral, hoje já não importam, e é bem visto aquele que tem uma boa memória e consegue decorar uma série de livros, ou ainda aquele que possui uma boa oratória.

Dentro deste contexto, nos deparamos com um problema comum a quase todas as artes marciais modernas: o fato de que hoje as pessoas têm procurado as academias para praticar as diversas modalidades “marciais” em busca da aquisição de uma faixa preta ou qualquer outra graduação que aos olhos dos outros sejam sinônimo de “poder”, ou seja, buscam uma espécie de valorização ou vaidade pessoal que nada tem a ver com o verdadeiro objetivo das artes marciais.

São responsáveis por esta deturpação a maioria dos instrutores, professores e “mestres” da atualidade que, com raras exceções, não se importam com seus alunos e não querem saber o que eles fazem com os “ensinamentos” que recebem. Estão sim, preocupados com o pagamento das mensalidades e com as taxas cobradas para o exame de graduação, que é o motivo pelo qual dão aulas.

Porém, este não é um problema inerente somente as artes marciais... estende-se a todas as áreas da pedagogia e irá persistir até o dia em que as pessoas pararem de agir a partir de elementos externos e passarem a exercitar suas tendências naturais, pois para que se possa realizar um bom trabalho, em qualquer área, é necessário ter VOCAÇÃO. Aliás, deveríamos dar mais atenção a este assunto, pois na vocação está a chave para a realização pessoal e para a tão sonhada felicidade.

Quando nos deparamos com a triste realidade de nosso sistema educacional, chegamos à conclusão de que as atividades que deveriam ser benéficas, como é caso das artes marciais, acabam prejudicando não somente o praticante, mas também a imagem da arte praticada.

Porém, se pararmos por apenas um instante para refletir sobre a prática marcial, certamente chegaremos as seguintes conclusões: Não basta ter socos, chutes e bloqueios fortes, precisamos também ter princípios fortes; Não basta falar de coisas boas, precisamos e devemos praticá-las; Não basta coragem para o combate é preciso coragem para enfrentar a grande luta da vida, onde os desafios são diários; Não basta dominarmos nosso corpo e achar que isto é suficiente para merecer uma faixa preta, devemos tornar “faixa preta” nossa consciência e nosso coração, pois agindo desta forma pouco importará qual a cor da faixa que ostentamos na cintura, até mesmo porque não andamos uniformizados em todas as ocasiões de nossas vidas.

Todos os praticantes de artes marciais deveriam fazer aumentar junto com sua graduação as suas virtudes, para que venham a se tornar pessoas de moral, de bom caráter.

Portanto, somente é faixa preta aquele que, sem preconceitos, busca o conhecimento e procura fazer dele uma prática diária; Somente é faixa preta aquele que respeita a sabedoria eterna, seu mestre, seus companheiros de treinamento, sua família e todos seus semelhantes; Somente é faixa preta aquele que busca harmonizar sua personalidade efêmera deixando assim transparecer, ainda que de forma distorcida, a beleza de sua alma; Somente é faixa preta aquele que dedica sua vida para ensinar o pouco que sabe aos outros, através seu próprio exemplo; Somente é faixa preta aquele que no meio da confusão moderna ouve a voz da sua consciência e se mantém fiel aos valores que moveram, movem e sempre moverão os grandes guerreiros... ou como está descrito na frase de alguém cujo nome não lembro, mas que jamais esquecerei as palavras: 

“Ser um autêntico faixa preta não é ser mais, mas se tornar menos. Menos agressivo. menos vaidoso, menos autoritário, menos cobiçoso, menos invejoso, menos egoísta, menos apegado, menos ignorante, menos violento, menos...” 

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Referências:

ANDRETTA, Denis. A graduação nas Artes Marciais. Seidenkai Saishin Nyūsu. Informativo nº 0003, Dezembro/2004, Ano I.

ANDRETTA, Denis Augusto Cordeiro. Minhas Reflexões: A graduação nas Artes Marciais. Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Dezembro de 2004.

3 comentários:

  1. Caro Denis:

    A graduação nem é o mais importante. O importante é aquilo que o praticante (aluno ou mestre) faz, demonstra, transmite e, através disso, vai contribuindo para a formação de verdadeiros SERES HUMANOS.

    Enquanto a pedagogia não for considerada e encarada - logo, posta em prática - como uma pedagogia ética e moral, a tendência será irem-se perdendo valores...

    Quanto à VOCAÇÃO, por si só não chega. É necessário empenhamento, é preciso buscar conhecimentos verdadeiros e reais, em suma, é necessário ter competências - competências técnicas, pedagógicas e éticas.

    Abraço amigo.

    Mas isto é uma mera opinião pessoal. Como tal, discutível. Vale o que vale...

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  2. Olá, Inocentes-sensei!

    Em primeiro lugar gostaria de agradecer pelos comentários oportunos e inteligentes que tem feito no BLOG.

    É uma pena que a graduação externa (faixa) não reflita, em muitos casos, a responsabilidade ética e moral que um SENSEI deve ostentar... conheço muitos “senseis” e poucos SENSEI.

    Tornar-se um SER HUMANO... útil PARA A SOCIEDADE... é o objetivo último do Budô!

    Embora eu tenha consciência de que a vocação, pura e simples, não seja suficiente... já seria um bom começo, pois “colocar sapateiro para fazer pão” não dá certo... da mesma forma colocar os “senseis” para fazer trabalho de SENSEI... tão pouco.

    Um abraço,
    Andretta.

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  3. Amigo Denis,

    Muito obrigado por escrever este artigo.
    Ele foi carinhosamente transcrito para o meu blog...

    Um forte abraço,
    Carlos Camacho.

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